
Feliz Natal e que o Ano de 2011 se torne num
Ano Novo de aprendizagem e de amizade pelos
outros.
para todas com um grande beijinho
da Maria João
Um espaço para partir a casca e saborear o miolo...
A Amizade
«Mas quem é que caminha a teu lado?». Quando me reencontro com esta pergunta, trazida por um verso de T.S. Eliot, penso quase sempre nos amigos. Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. Tenho amigos dos dois tipos. Com alguns, sei que a nossa amizade se cimenta na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. Com outros, percebo que a amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar.
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade. Na maior parte das vezes quando reconhecemos alguém como amigo, isso quer dizer que já nos ligava um património de amizade, que nos dias anteriores, nos meses anteriores, como escreveu Maurice Blanchot, «éramos amigos e não sabíamos».
Aquilo de que uma amizade vive também dá que pensar. É impressionante constatar como ela acende em nós gratas marcas tão profundas com uma desconcertante simplicidade de meios: um encontro dos olhares (mas que sentimos como uma saudação trocada entre as nossas almas), uma qualidade de escuta, o compartilhar mais breve ou demorado de uma mesa ou de uma conversa, um compromisso comum num projeto, uma qualquer ingénua alegria…A linguagem da amizade é discreta e ténue. E ao mesmo tempo é inesquecível e impressiva.
Há aquele ditado que diz: «viver sem amigos é morrer sem testemunhas». A diferença entre os conhecidos e os amigos é a mesma que distingue um ocasional espetador daquele que está habilitado a testemunhar. Este último disponibiliza-se realmente a ser presença. Se tivesse de resumir a sua natureza, apetecia-me dizer: um amigo é alguém que foi capaz de olhar, mesmo que por um segundo apenas, o fundo da nossa alma e transporta depois consigo esse segredo, da forma mais gratuita e inocente. E nós retribuímos o mesmo. Em dois ou três poemas de Adília Lopes sublinhei, há tempos, isso. No idioma da poesia de Adília, a amizade era descrita assim: «busquei o amor sem ironia». A amizade, mesmo quando nos fartamos de rir e de alegrar com os outros, é esse transparente amor.
Tenho por uma grande verdade aquilo que escreveu o filósofo Paul Ricoeur: «para ser amigo de si próprio é necessário ter já vivido uma relação de amizade com alguém».
Um céu para a igreja de Santa Isabel, Lisboa from Pastoral da Cultura on Vimeo.
À PROCURA DA PALAVRA
P. Vítor Gonçalves
DOMINGO XXIX Ano C
“Quando voltar o Filho do homem
encontrará fé sobre esta terra?” ”
Lc 18, 8
A fé subterrânea
A feliz epopeia do resgate dos mineiros chilenos uniu-nos numa audiência mundial só comparável ao drama do 11 de Setembro, em Nova Iorque, há 9 anos. Hora a hora a terra ia trazendo à luz do dia, com o simbolismo de uma ressurreição (Fénix, a ave mitológica que renascia das cinzas, era o nome da cápsula salvadora) cada um dos 33 mineiros e os salvadores que tinham descido para ajudar. Nas camisolas de todos um agradecimento: “Gracias, Señor!” Não sei se Jesus encontrará, um dia, fé “sobre” esta terra, mas debaixo dela, certamente.
Não sabemos que justiça pedia a viúva do evangelho de hoje. Na tradição bíblica as viúvas são o símbolo de todos os desfavorecidos e abandonados. Ninguém as defende, não há reformas nem seguranças sociais que as apoiem. É porta-voz dos injustiçados do mundo, de quem não tem vez nem voz, mas encarna a perseverança ou o desespero de não desistir de gritar. Em vários momentos Jesus aponta a força da perseverança: o amigo inoportuno a pedir pão, a mulher siro-fenícia que pede a cura da filha, o cego de Jericó que grita por um milagre. Baseado na experiência da natureza o povo diz na sua sabedoria: “Água mole em pedra dura…tanto dá até que fura”! De tanto desejar milagres esquecemos que a maioria deles dão muito trabalho, precisam de muita insistência!
A oração será também uma luta? Como a de Jacob junto à torrente de Jaboc até ao romper da aurora (Gn 32,25)? É luta contra a auto-suficiência que nos isola, e contra a história que nos oprime, porque a vontade de Deus é comunhão e justiça. Quando rezamos lutamos por um sonho, por uma vida mais abundante, por um reino que ainda não está realizado. Dessa luta falava o segundo mineiro a “ressuscitar” da terra: “Estava com Deus e com o Diabo. Eles lutaram por mim e Deus ganhou. Nunca pensei, nem um minuto, que Deus não me tirasse dali. Eu acredito que Deus testa as pessoas e acredito que temos de confrontar coisas na vida como as que nós tivemos que defrontar lá em baixo.” Uma luta que nos aponta as muitas que temos de travar neste “buraco de crise” em que estamos, não é?
A oração é, verdadeiramente, “um problema político”, como dizia o teólogo Yves Congar. Porque nos obriga a deixarmos de olhar para o próprio umbigo e a construir com Deus um mundo mais justo para todos. Porque é um grito contra a injusta distribuição das riquezas do mundo e o escândalo dos excessos. Porque nos mostra tão dependentes uns dos outros e desmascara a desumanidade de quem se julga acima de todos. A oração sintoniza-nos com o projecto de felicidade que Deus quer fazer connosco! E nunca sem nós!
E incomodou-me, inquietou-me aquele salmo que rezámos. É que diz:
O Senhor é meu Pastor, nada me falta.
É que bem parece que não é assim.
Mas teimei e fui rezando que o Senhor é meu Pastor e que nada me falta.
pedindo que me libertes de preocupações ou ocupações inúteis.
E julgo que a esta hora nocturna,neste desnorte,
vou entendendo as belas palavras do salmista.
Assim repetidas devagar ,
elas foram deixando p'ra trás tantos vales tenebrosos que me impedem de proclamar Jesus como o meu único Senhor.
sei enfim a certeza de vires em meu auxílio,
de me transportares nos Teus ombros,
O amor antigo vive de si mesmo
Não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor porem nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mais pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond